26 maio 2015

Clave de Chuva...


Clave de Chuva...

Guardada a sete chaves... oito talvez, bem por ali, distante
Com aquele ar de quem olha no espelho e vira e se revira
E pisca para suas bocas feitas e olhos de esmeralda, lindos
Desprovidas de vergonha, claro... porque a porta está fechada
Calça jeans no cabide, passadinha. E a blusinha, ah, aquela uma
Escolha a sandália, aquela que mostra os pés, salto bem alto
Para eu não tirá-la quando for borrar a sua maquiagem.
E eu aqui fingindo que não estão me vendo, ditando melodia, poesia
E torcendo para que os olhos do meu bem se desvie para mim
Mas tudo bem também, meu bem... esses seus olhos são só meus
Só eu, apenas eu, que eu sei, os fazem chorar de se lambuzar... será?
Mas sabe, é só para vê-la retocando a maquiagem, aquela que borrei
Lembra? Naquele momento que nem conto aqui, finjo que não sei.
Ei você aí. Ei você, olhe para mim... pode olhar agora
Eu só fingi que fui embora, estou inteiro ainda, com sombra e tudo
Busque lá o espelho, aquele maldito que nos engorda... rs
Conte para ele a nossa história. Reflexo que brilha como estrela
E não se esconda e não me perca, procure-me. Você me acha
E quando me achar, beije-me com o seu beijo que vai me deixar mudo, surdo, louco, alucinado, perplexo... eu sei.
Ah! E pode ser no meio da sala, no quarto, na cozinha, no chão, na rua, no céu ou no mar...
Pode ser escalando paredes, essas já cortadas, cheias de unhadas nossas, torço para isso.
Quero dormir e acordar em você, travesseiro (aquele) babado, lençol revirado e amarrotado, rasgado.
Tudo por ali jogado, meio que largado por nós dois... durante e depois.
Eu sempre tive vontade de ter uma mania terrível de desmanchá-la toda, sabia?! E você pensava que eu nem existia.

E o poeta disse: Nos fios tensos da pauta de metal as andorinhas gritam por falta de uma clave de Sol.

E eu fico aqui pensando... Por que clave de sol? Quando escuto aquela nossa música que canta a sua ausência, meus olhos fazem chover e eu fico encharcado de lágrimas que nunca secam... são inesquecíveis. Como você, minha clave de chuva...


Renato Baptista

Sonhos Inacabados


Sonhos Inacabados

Hoje acordei de sobressalto
Passei a mão nos cabelos
E penteei meus sonhos
Olhos cheios de areia
Pediam um café
E meu bocejo me levantou
Meus chinelos estavam longe
Lá...
A barba por fazer coçava meu rosto
Quando encostava na gola suada
Da camiseta amassada como meu rosto
Acordei o dia e contra mim
Estava o sol que insistia
Em me bagunçar o olhar lacrimejante
Preparei, enfim, minha xícara de café
Foi difícil
Porque ela se escondia de mim
Aos goles eu a venci
E agora eu já dava passos conscientes
Enquanto minha cama ainda dormia
Desafiadoramente, como sempre
Adorava me mostrar esse contraste
Para que eu me sentisse culpado
Por não abraçá-la mais
Dei bom dia ao dia
Escovei os dentes
E banhei meu corpo, agora nu
Água escorrendo aos prantos
Lavava meus sonhos inacabados.

Comecei a viver mais um pedacinho da vida...


Renato Baptista

28 março 2014

"Despoesia"


“Despoesia”

Procuro minha sensatez
No brilho intenso da saudade
Que habita meu peito, minha vida
Canto esse meu canto distante
Choro pelos cantos
Esvazio meus versos
Que nem são mais versos
São emboladas palavras
E desfaço poesia
Derretendo sentimentos
Como asas de cera
Que desaparecem
No calor das distâncias
E nem voo mais
Não vivo, sobrevivo
Acariciando minhas dores eternas
Sóbrias, imaculadas, persistentes
Dores que são minhas
Adotadas com sobrenome e tudo
E sem rimas flutuo
Dia após dia, noite após noite
Como um cavaleiro das trevas solitário
Que tem medo do sol
Que se foi, se apagou
Ah, coração castigado
Sem sonhos
Sem vida
Que bate sangue ferido
E assim sigo, não persigo
Bebo aos goles
As sombras geladas
Dos momentos que virão
Uma por vez
Tentando não desistir
E de vez em quando
Dá aquela vontade danada
De fazer poesia
Tropeço, vadio, claudico
E só sai “despoesia”
Sem nexo, sem sentido
Sem calor, sem amor nos versos
Sem calor nas linhas
Sem rimas nem nada mais
O que resta é a saudade
Aquela que fere, machuca
Porque a vida se vai
E ela é o amor que fica

Nem sempre a poesia é justa
Nem sempre poesia brilha
Como brilha a saudade
Nem sempre a poesia tem amanhã
Como eu...

Renato Baptista

29 outubro 2012

Vida Bandida




 Ah, essa dor tamanha
Eu já me desconheço e nem sei
Nem sei se é o cansaço que me leva
Que me chama e entorpece, um dilema
E me esconde o limite entre o resistir e o desistir

Ah, essa constância diuturna que me ceifa o sorriso
E faz meus lábios tremerem e absorverem o choro
Que trás brilho à minha íris lavada e sem cor
E eu acordo e durmo, entregue ao impulso inconsciente
E me transformo em tempo, intocável
Invisível e fatal e inodoro e insípido
Ah, a vida, vida bandida, desígnio de Deus

Espera... eu aqui transtornado tentando entender a ordem natural das coisas como se não soubesse...

Mas a dor volta, doída e enfurecida porque ousei resistir
Vou enganá-la. Desisto!!!
Brilha o sol e a lua adorna o azul/negro da noite
Essa que me leva a pensar enquanto repouso... de tanta dor
Brinco no balanço olhando para cima
Para onde imagino alcançar
E forço o movimento
Empurrando as pernas para cima
Mas sem largar a mão da corrente
Que me prende ao chão, próximo

Eu me desnorteio.

Não sei enganar nem a dor, pífio!

Desistir ou resistir? Responda por mim e me avise um dia, eu espero
Espero aqui ou lá, depois das nuvens
Porque sou o tempo agora
Sem sabor, sem cor, sem nada... sem nada demais.

Por onde vão as flores que não te dei?
Quer uma tragada do meu cigarro?
Repouse seu pé em cima do meu!
Deus, estou sonhando em poesia
Dormindo acordado
Embalado pela dor que me alucina...

Renato Baptista

Fragmento - Portal do Tempo


07 setembro 2012

06 agosto 2012

29 julho 2012

A Luz Difusa de Um Abajur Lilás e a Eterna Rosa Vermelha.



 Capítulo 01 – O Sonho

Estávamos nos idos de 1946, pós-guerra na Europa. Um território destruído pela ambição humana mais uma vez. Madeleine Morgan, nascida e criada na Inglaterra, morava em Ashford na Kent Avenue, 07, em um sobrado de tijolinho aparente com a porta pintada de vermelho, quase esquina com a Magazine Road, perto da rotatória.
Ela havia sofrido com as agruras da guerra, tendo perdido seus familiares nesses anos de fogo e tormenta. Hoje seu lar está reconstruído graças a seus esforços e seu trabalho incessante numa fábrica local.
Madeleine havia conhecido David Justin Keagan um pouco antes do início da guerra, em 1938, em Canterbury, cidade natal dele durante férias que ela tirara na fábrica de bolsas onde trabalhava.
David morava na St.New Ruttington Lane, 09 em um sobrado de 3 andares que foi refúgio do amor mais lindo de que já tivemos notícias. Daqueles que histórias não conseguem contar. Eles se amaram como ninguém nunca havia se amado nesse re-encontro.
A guerra os separou, pois David serviu na Royal Air Force como piloto de avião caça (Spitfire MK IV), completando 23 missões e abatendo 17 aeronaves inimigas. Foram dias, anos incontáveis em que se correspondiam e não conseguiam se encontrar, exceto na semana do Natal de 1941 em Londres.
Os anos se passaram, a guerra terminou e iniciou-se o processo de reconstrução da Europa. Cidades destruídas, lares terminados, corações embotados de tristeza e agonia era o que se via, mas a vida continuava.
O sonho de Madeleine e David era viverem no sul da França, numa cidade onde antigos parentes de Madeleine haviam deixado uma propriedade que, por presente divino, não havia sido destruída nesses anos de desatinos e crueldade. Há muito eles combinavam que iriam se casar e viver o resto de suas vidas por lá.
David estava em Londres onde preparava os documentos para sua mudança e o plano era que ele fosse de avião para Ashford e de lá rumassem por trem até Dover, de onde sairiam, atravessando o canal da Inglaterra até Calais na França, e depois viajariam de carro pela autovia  L’Autorute des Anglais  até Thérouanne – Rue de Boulogne, 37, que era o endereço dos sonhos dos dois. Uma vida os esperava, definitivamente e para sempre, contemplando o amor construído em tempos difíceis e que sobreviveu a tudo por ser eterno e verdadeiro. Um amor que veio de outras vidas, que sempre existiu.
Madeleine havia vendido a sua casa e livrou-se de todos seus bens, pois iria constituir família e nova vida a partir de agora com David.

Capítulo 02 – A Realização e a Realidade

Chegara o dia finalmente. Dia 07 de Janeiro de 1946, 17:00hs, hora do chá quente com um pingo de leite, e Madeleine chegou à estação de trem de Ashford, onde se encontraria com David.
Ele viria de avião de Londres e eles se encontrariam na estação para embarcar no trem 724 das 19:00 hs com destino a Dover.
Chovia muito lá fora e o frio era gélido, flocos brancos de neve brindavam o encontro que estava por acontecer. A noite começava a cair, escurecia e Madeleine estava em pé, ali na plataforma, acompanhada por sua paixão, por seu destino.
Os minutos passavam e suas mãos suavam dentro das luvas de couro marrom, tal ansiedade que a cercava. O tempo, nosso inimigo, às vezes, não colaborava e o relógio da estação anunciou 18:40 hs. O trem 724 chegou à estação e passageiros desceram conturbadamente. Madeleine em pé na plataforma aguardava David e o último aviso de partida foi dado pelo maquinista através de um apito longo. O mais longo da vida de Madeleine.
David não aparecera. No rosto de Madeleine via-se escorrer uma lágrima solitária como ela naquele momento enquanto o ruído da partida da composição tomou conta da estação. O trem se distanciava decididamente com as poltronas 23 e 24 vazias, escondendo a angústia e o desconsolo.
A estação, agora vazia já, aguardava o próximo trem, o destino¿ Não sabemos até hoje.
No guichê de passagens, Mark Costner, o vendedor de tickets, cochilava a ponto de roncar. Sobrancelhas grossas, tez clara e pele do rosto enrugada pelo frio constante a que se expunha ali no ambiente do seu trabalho. Dormia a estação naquele momento e Madeleine desolada, sofria o seu inconformismo. Ela estava quase congelada pelo vento da tristeza que percorria a plataforma.
Sua boina bege de lã segurava os cabelos negros que em parte viajavam com a brisa forte, fria, cortante, e os seus cachos se misturavam ao seu cachecol na mais longa e triste das esperas.
Outro expresso se anuncia e pára na estação. E depois outro, e outro, e as pessoas apressadas entre malas e volumes desviavam de Madeleine que mantinha junto aos seus pés a sua mala preta enquanto apertava contra seu peito uma valise de tecido cinza.
Na valise, as cartas de David. As cartas que contavam a história de um grande amor, seu único bem e que se misturavam às recordações, presentinhos, que ele lhe enviava constantemente das cidades onde esteve.
Madeleine permanecia estática e o barulho gritante da partida do último trem daquela noite junto com o vapor que se levantava a partir dos trilhos polidos fez com ela abrisse seus olhos castigados. A plataforma estava novamente vazia e David não estava lá. Não havia notícia dele.
A estação fecharia às 00:00 hs pontualmente, pois as viagens haviam sido suspensas pela defesa civil em função de uma forte nevasca que assolaria várias cidades da Grã-Bretanha, com ventos de 130 Km/Hora. Todos deveriam se recolher às suas casas, era o aviso, mas Madeleine não tinha mais casa, ela era espera, e assim, o tempo não existia mais.
Eram 23:38 hs e vagarosamente ela se virou, esboçando uma réstia de vida, e viu encostado na parede um banco azul, já com a pintura meio descascada. Ela abaixou para pegar sua maleta e depois caminhou vagarosamente até o banco e sentou-se.
O frio era intenso ao extremo e seus olhos se fechavam. As pálpebras enrijecidas tornavam o ato dolorido até. Ela tremia compulsivamente e seu rosto assumia o contorno das lágrimas congeladas pelo vento. Madeleine sobrevivia naquele momento apenas. Ela não estava bem.
Meia noite em ponto e a estação foi fechada. Mark não havia percebido Madeleine sentada ali naquele canto. Todos haviam ido embora e ela foi esquecida com seus pensamentos e o seu amor latente e tão distante. Algo havia acontecido, ela sentia.
Em determinado momento um tremor extremo percorreu o seu corpo cansado e sofrido que a tosse ininterrupta castigava. Contrações aceleradas a perturbavam e seus olhos se reviraram nas suas órbitas. Suas mãos se abriram e deixaram cair no colo e depois no chão a sua valise cinza, onde morava a memória de David.
Madeleine estava fraca e nunca havia sido curada da grave infecção pulmonar que adquirira nos tempos da guerra e assim, naquele momento, ela partiu levando a sua angústia e todo o seu desespero.
Sua cabeça pendeu por cima do ombro esquerdo, os braços caíram pelo corpo e não houve despedida. No seu semblante um mistério. Seus lábios esboçavam um sorriso.

Capítulo 03 – O Reviver

Na manhã seguinte, o trem 724 chegou ao seu destino. Acordou Dover com seus guinchos e apitos ensurdecedores. Muita gente na plataforma de desembarque, confusão, idas e vindas, bagagens e os passageiros continuavam a se levantar das suas poltronas, pegando seus pertences e se preparando para descer dos vagões.
Quase no final do tumultuo, ali no vagão 07, poltronas 23 e 24 ainda estava sentado um casal.
Eles descansavam calmamente, sem tempo, enquanto outras pessoas se aglomeravam. Eles se olhavam doce e apaixonadamente e suas mãos se apertavam e dedos entrelaçados trocavam segredos. Era um momento de encanto onde alma conversava com alma e um mundo particular se formava.
O homem levantou-se e aprumou seu sobretudo negro, pegou no guarda-volumes superior e malas e o seu chapéu ainda úmido e o colocou na cabeça, rodando os dedos pela borda da aba. Ele olhou para a sua linda mulher pedindo aprovação, e ela com um sorriso e um ligeiro movimento de cabeça o fez entender que o chapéu negro precisaria ser levemente inclinado; o charme.
Com um breve movimento o homem consertou o seu semblante em concordância com o toque sutil da sua amada e em seguida estendeu sua mãos para ela e a ajudou a levantar-se. As mãos dela esticavam o linho da blusa, abotoou os botões do casaco, endireitou sua boina bege, enrolou seu cachecol no pescoço e calçou suas luvas marrons. As bagagens foram empunhadas... uma valise cinza e uma maleta, e assim eles se dirigiram até a porta do vagão. Pararam por instantes, olharam para fora, respiraram fundo e desceram abraçados, caminhando pela plataforma em direção à vida que os esperava.
Alguns dias depois, contam os moradores de Thérouanne, que a chaminé da casa da Rue de Boulogne, 37, apesar de fechada há anos, deixava escapar fumaça, como se a lareira estivesse acesa. No seu interior vivia um casal que os olhos humanos não podiam ver. Na verdade, ninguém ousava bater à porta ou tentar descobrir o que ali se passava.
O amor prevalecera e o destino se cumpria porque a vontade de Deus era sublime.



Considerações Finais

Na tarde do dia em que Madeleine faleceu um avião do exército britânico havia sofrido avarias no motor, em pleno vôo, durante uma tempestade de neve e desapareceu num dos desastres aéreos mais incríveis da história da aviação.
David havia perdido a hora do seu vôo de carreira que sairia de Londres naquela tarde e como tenente da aeronáutica reformado, ex-combatente, conseguiu embarque numa aeronave da RAF. Os seus destroços foram encontrados tempos depois numa floresta. Sobre uma das asas incineradas uma rosa vermelha permanecia tenra e não há notícias de sobreviventes, pois tripulação e passageiros tiveram morte instantânea segundo avaliação da aeronáutica e da peritagem da polícia.

O corpo de Madeleine fora encontrado sem vida na manhã seguinte na estação e não se sabe qual destino tomou. Seus pertences foram guardados em um armário corroído pela ferrugem na delegacia de polícia cujas portas foram trancadas com cadeado. Nunca ninguém os reclamou.

As residências de David e Madeleine existem até hoje em Canterbury e em Ashford e conservam as suas características originais.

O tempo passou, e após mais de meia década, em Thérouanne, a casa da Rue de Boulogne, 37 continua fechada. Quem passa pela rua à noite pode ver uma luz lilás através da janela, por trás da cortina e pode ouvir risadas e poemas de amor declamados em voz alta vinda de dentro da casa. À porta uma rosa vermelha eterna enfeita a entrada, ela resiste ao tempo mantendo seu frescor e perfume até hoje.
Ninguém ousa tocar a campainha e nem mesmo chegar perto da porta e das janelas da casa que virou o templo do amor maior.

David e Madeleine existiram e existem de verdade no coração de cada pessoa que ama verdadeiramente. Eles viverão juntos para sempre, e assim como a rosa vermelha, seu amor será eterno!

The End

Renato Baptista




A Face da Saudade


Desfocado


04 julho 2012

Sonhos Inacabados



Sonhos Inacabados

Hoje acordei de sobressalto
Passei a mão nos cabelos
E penteei meus sonhos
Olhos cheios de areia
Pediam um café
E meu bocejo me levantou
Meus chinelos estavam longe
Lá... fui descalço mesmo
A barba por fazer coçava meu rosto
Quando encostava na gola suada
Da camiseta amassada como meu rosto
Acordei o dia e contra mim
Estava o sol que insistia
Em me bagunçar o olhar lacrimejante
Preparei minha xícara
Foi difícil
Porque ela se escondia de mim
Aos goles eu a venci
E agora eu já dava passos conscientes
Enquanto minha cama ainda dormia
Desafiadoramente, como sempre
Adorava me mostrar esse contraste
Para que eu me sentisse culpado
Por não abraçá-la mais
Dei bom dia ao dia
Escovei os dentes
E banhei meu corpo, agora nu
Água escorrendo aos prantos
Lavava meus sonhos inacabados.

Comecei a viver mais um pedacinho da vida...

04 junho 2012

Bala de Coco


Pego-me além da atmosfera
Estendo a mão e pego a lua
Como se ela fosse bala de coco
Transgrido as leis do universo
E tomo impulso no nada
Querendo alcançar o sol
Que me lambuza como um quindim
E me desfaço em mel e coco
Como se o amanhã fosse agora
Não posso parar de flutuar
No silêncio absoluto
Abotoado de estrelas distantes
Mas que estão tão perto
Marcando meu caminho
E assim bebo o seu perfume
Que me oxigena o coração
E beija a minha alma viajante
Porque meu destino é você.

Renato Baptista

10 abril 2012

Ensaio


Abro os meus olhos
Um novo amanhã
Vejo o mundo embaçado

Esfrego os olhos

Tudo continua torto
As cores mudaram
As pessoas mudaram
O mundo é outro

Procuro o meu café
Ele tem outro gosto
O ar está pesado
Tudo meio distante
As pessoas mudaram
O mundo é outro

Esfrego os olhos

Agora limpo lágrimas
Elas escorrem apenas
Porque não choro
Apenas respiro
Outros cheiros
As pessoas mudaram
O mundo é outro

Piso no chão e ando
Os caminhos são outros
Os telefones mudaram
Os endereços mudaram
A cidade mudou
E eu não percebi que...
As pessoas mudaram
O mundo é outro

Ideias, pensamentos
Formatos, crenças
Avaliações, brincadeiras
Forma de amar
De beijar
De abraçar
Tudo mudou
As pessoas mudaram
E o mundo
Bem, acho que não pertenço mais a esse mundo
Ele não é mais meu
É de outros
Que permitem
Que exageram
Que não sossegam
Que não ligam
Que admiram o vazio
Que vivem
Ou apenas sobrevivem, tanto faz
Porque essas pessoas são outras
E eu não pertenço mais a esse mundo

Darei um tempo, porque já dei uma vida
Tentei, espernei, construí, criei, sofri, tentei
E o meu mundo é outro
Porque o mudaram simplesmente
Aquelas pessoas o mudaram
Então o mundo é outro
E eu já sei, não pertenço mais a esse mundo.

Um dia, lá na frente
Lerão meu poema
Esse aqui, pode ser
E ele estará mudado
Porque o mudarei
De onde estiver
O poema será outro
E as pessoas
Ah, as pessoas
Não serão mais desse mundo
Porque o terão destruído
O café, o ar, o cheiro
Os abraços, os beijos
Serão lembranças sutis
De um mundo melhor
Um que existiu um dia
Em algum lugar
E que não é mais de ninguém.

Renato Baptista

15 março 2012

Cólera

Desavenças e ensaios
Como torturante agonia
Que se esfregam no corpo
E cortam como lâmina afiada
Fazendo escorrer o sangue
Sangue amarelo pálido
De tão desbotado e cruel
Que lambe a pele ferida
A alma cortada em pedaços
Que se espalham pelo chão
Que pisam os incautos
Vem no vento a causa
Pousa como águia que sorri
No parapeito do amor
E grita alto, bem alto
-Vou te matar!
E os argumentos acabam
Desgraça se anuncia plena
Porque a vida é assim
Eterna luta feroz
Contra maledicentes
Que quebram a harmonia
Sempre e sempre e sempre
E nem sei de onde eles vem
Esses malditos aterrorizantes
Que se impõem como deuses
E arrebatam a temperança

Não há fortes e nem fracos
Não há vitória nem derrota
Não há passagem bíblica
Nem ditado que amenize
Que pare a cólera da fera
Essa que brota do chão
Aparece como aparição
Desmancha os sentidos
Arruína a pátria
Esmaga o que sobrou
E ri sorrateiro do vencido
Do cansado de guerra

Se a vida é provação
Porque a fé prova que é
Deveria haver intervalo
Descanso merecido
Para que os justos
Vivam o amor em trégua
Mas a vida é luta
É dormir com um olho só
É atenção e cuidado
É vibração e tormenta
Angústia e sofrimento
Alegria e prazer
Tudo isso misturado
Como bolo temperado
E levado ao forno quente
Do inferno...

Mas no final um sobrevive
O mais fraco no caso
Como disse Jesus
Então não valem as armas
Não valem táticas ferinas
Não valem os ataques
Nem as procuras insanas
Não vale nada nessa vida
Além da própria vida
Essa roleta de cassino
Que gira, e gira e gira
E o resultado é preto ou vermelho
Não importando o número
Preto da desgraça, do luto
Vermelho do sangue
E o vencedor é ninguém
Porque corpos e almas
Jazem cansados ao lado
Tentando entender os motivos
Tentando aprender com fatos
Chorando sem parar em agonia
E êxtase, talvez...
Alguns são assim
Porque gostam de sofrer
E de invadir o que não é seu
Arrancar quem não é seu
De quem não conhece
E assim as batalhas se iniciam
Carnificina pura e dolorida
Como se fossem ordens de Deus
Mas Deus não pensa assim
Apenas os homens são desse jeito
E porque merecem, talvez
Porque querem
Porque precisam disso
Para provarem que estão perto
Perto desse Deus que lhes ensina
E o resultado é a morte
Morte prematura
Porque sempre há um melhor que aquele.

Triste constatação!!!

O que resta é a verdade de que só o amor constrói...

Renato Baptista

20 fevereiro 2012

10 fevereiro 2012

Chorar na Chuva


I
N
T
R
O
S
P
E
C
Ç
Ã
O

Dentro de mim
Mora a saudade

Das palavras
Carinhosas
Dos carinhos
Impensados
Dos carinhos
Sensuais
Dos beijos
Na boca
Oca
Dos olhares
Risonhos
Que escondem
Segredos
Daqueles
Guardados
Que não se contam
Dos abraços molhados
Do cigarro na janela
Cuja fumaça
Abraça o mundo
Do toque sutil
Com gosto
De café com leite
Pão e manteiga.

Fica a sensação
A lembrança
Do amor bem feito
Incontido
E que guarda
A entrega
Da paixão
Acelerada
Guardada
inesquecível.

É só mais um dia
Porque amanhã
Bem... amanhã
Acordo o dia
Sem pensar na noite
Que virá depois
Em que os cheiros de amor
Se misturarão aos sabores
Do seu corpo macio e doce
Fica como sendo
Surpresa esperada.

E fico pensando
Arquitetando o desejo
Sofrendo a ausência
Do que sustenta
Minha alma, minha vida
Porque só existe você
E mais ninguém
Capaz de me fazer sorrir
De me fazer viver
Cada momento vão
Em que lágrimas escorrem
De tanta saudade
De sofrimento
De alegria
De paixão
De espera
E isso é coisa minha
Que ninguém vê
Ninguém sente
Só você sabe
É o mesmo que chorar
Na chuva.

21 janeiro 2012

A Porta Azul




A janela aberta
Perfume de insônia no ar

Meio copo d’água
O pijama ainda dobrado
Lençóis esticados
A cama vazia
Brindando a manhã

Sem sol
________________sem bom dia
E insistentemente ainda acordada

a noite se foi
e com ela a madrugada fria

Um cheiro de café requentado
Sai da cozinha
Temperando o ar
Perfumando o dia

Escuto a campainha
Caminho devagar
Quase sem vontade ainda
Chinelos trocados
Cheios de sono
Por me fazerem companhia
Olhos vermelhos
Barba crescida
Camiseta molhada
Olhar embargado

Abro a porta azul
Que solta gemidos
Range um pouco a dobradiça

Levanto o olhar esquecido
______________E vejo
... era um dos meus sonhos
Chegara!

Abandonou o sono de amor
Que sem você me abraçando apertado
Mais uma vez não veio.


Beijo meu sonho com todo o meu amor
Faço dele meu alimento, minha razão de vida
E o espero, acordado, e que abrace a minha alma
E que desarrume a minha cama, a liberte.

Fico ao lado então daquela porta
Porta azul, que solta gemidos... como você.

Renato Baptista

12 janeiro 2012

Pintura Poesia

Esse teu jeito que me pega de jeito...
Agita o instante na dança do tempo

E vem o delírio na pose bendita
que me chama e grita

E a tela se pinta de paixão
Sem compostura nem nada

Alças voo sem pensar, e me olha e me chama
E me queima sem jeito, daquele jeito que só você sabe...

Pintura poesia se forma e se deita.

Renato Baptista