
Esta história está além da ficção, pois aconteceu com um amigo cujo nome não vem ao caso agora. Eram idos de 2003 quando na cidade de Louveira (MT) uma alma sucumbiu por causa do amor que sentia..
Um teatro, filas imensas... Estréia da peça que moveria o mundo com seus atores consagrados. O brilho resplandecia, enlouquecia multidão e o grande show teria início.
Despedida
Abrem-se as cortinas
Começa o espetáculo
Personagens correndo
Pelo palco que já se fazia pequeno
Luzes piscando, aplausos mil
Chuva de pétalas
E o roteiro tem início
As falas gritam
E o destino se acelera
Platéia atenta
O povaréu nem pisca
Volúpia e desejo se pronunciam
Guardas abertas, solidão de alguns
Festa de outros
Desnorteios das almas
E a busca é frenética
Entre os atores que se entregam
Aqueles mesmos
Que se vêem nus nos bastidores
E agora se impõem no palco
Sem timidez, sem medos
Palco da vida que é assim
RepresentaçãoVida soberba com situações maculadas que se sobrepõem ao amor determinado e puro, porque na vida, como no teatro, o amor de verdade morre pelo veneno.
Romeu e JulietaSobrevive a paixão
Dos que rolam nus pelo chão
Gemendo
Enquanto o homem
Sentado ali, bem na primeira fila
Chora sua solidão angustiante, real
Assistindo o palco se incendiar
E fazer ferver o seu amor eterno
Que se debruçava na investida alheia
E fazia-no ver de perto o seu chão tremer
Alucinadas sensações... Regozijo
E corpos se fundem em carícias aceleradas sabendo que não haverá, para eles, um amanhã.
Paradoxo
O homem triste
Tira do bolso
Um bloco e um lenço
E calado escreve
Uns versos de amor
Enquanto este, baila no palco
Se esfregando nu em outro amor... de alguémMão trêmula traduz com garranchos doloridos a sua agonia. A outra mão leva o lenço aos olhos cegos por lágrimas de sangue que brotam doloridas.
TristezaO linho branco se avermelha
E a face do homem que ama
Não suportando a tristeza
Deixa escorrer rios de lágrimas
Sobre seus versos de amor
O espetáculo vai chegando ao fim, a peça vai terminando e a multidão aplaude de pé e alucinada a tristeza do homem sombrio.
Descontrole
Os atores nus se abraçam
Nudez de sentimentos
Nudez de alma
Nudez por nudez
Nudez total
Espectro da sodomia
E no último fechar das cortinas
Todos se beijam no palco
Roçam seus sexos nus
Que se encaixam sem desejo
Bocas se lambem
Eles se apalpam e permitem
A libertinagem sem nexo.Aos poucos todos vão saindo rumo aos camarins, onde ali, os esperam seus pares desesperados que preferiram não assistir à peça... olhos fechados e lacrados para o show da vida.
O auditório foi se esvaziando, as pessoas voltando ao mundo real, uma a uma. As luzes foram se apagando e todos saíram, menos um.
Desespero
Ali na primeira fila
Permaneceu sentado
Aquele homem que amava
Imóvel estava, com seu bloco ao colo
Caneta no chão
Olhos semi-cerrados
O poema escrito no bloco
Estava vermelho
Recoberto de sangue espesso
Só se lia o título: - “Despedida”O poema havia morrido junto com ele. Junto com seus sonhos, junto com seu amor maior que inflamava o peito e sentia disparado o coração e junto com sua paixão louca a e avassaladora.
Morte
No seu rosto
Por trás das lágrimas vermelhas
Um doce sorriso
Ele morrera
Com sua amada em pensamento
Enquanto ela corria nua pelos camarins
Abraçando cada um dos atores da peça
Seios empinados
Mamilos eriçados
Pelos arrepiados pelo sucesso
Que a conduzia plena Para aquele homem não haverá nunca mais um amanhã e para ela, um novo destino estava reservado.
EpílogoO corpo do homem foi arrastado
Levado como se fosse de um indigente
E agora pagava pelo crime de tanto amar
Pois ninguém sabia quem era ele
O seu bloco foi jogado de lado
O poema morreu sozinho
E sua alma partiu
Apaixonada e triste
A peça acabou
Fecharam-se as cortinas!Ao final daquele ano, durante a última apresentação da peça naquela turnê, o teatro incendiou-se pela volúpia e as chamas consumiram tudo até que o teto desabasse. Tudo ruiu.
Os jornais noticiaram, no dia seguinte, que todos os espectadores e todos os atores e empregados da companhia haviam falecido.
Nas operações de rescaldo, acharam uma lata prateada e surrada que estava guardada em algum lugar que deveria fazer parte dos bastidores do teatro. No interior da lata havia um bloco todo manchado de sangue.
Na primeira página lia-se a palavra, “Despedida” e na última uma oração que nunca ninguém havia lido... “Eu te amo, nesta e em todas as vidas que virão”.
Foi isso a única coisa que permaneceu intacta e viva naquele lugar, e que deve estar hoje, e estará eternamente, guardada em algum lugar do passado.
Renato Baptista
Em homenagem aos amores verdadeiros.