01 novembro 2009

Dores poéticas – Blue da Tempestade


Dores poéticas – Blue da Tempestade

Um dia, numa tarde gelada de inverno, eu caminhava pela rua pensando e fazendo das minhas horas uma vida, por tanto descontentamento que me envolvia.
Sentia o vento com tormento e sabia que havia sumido a ousadia...
Nada mais fazia sentido, porque o império dos sentidos me contornava e me aturdia com toques de desamor anunciado... Há tempos já que isso acontecia.
E fui caminhando e sentindo o rosto sendo cortado pelo frio, e assim ouvi a voz que me veio cantando essa canção... Toques de guitarra gemeram alto e a música se fez em prantos.


Não sei se saudade
É a palavra mais certa
Mas te ponho em versos
Como minha Lua
Com meu peito ferido
Coloco-te sem rimas
Minhas palavras tortas
Que descem do muro
Que se esparramam
Na calçada da rua
Altura do numero 502
E vago e divago
Sem rumo pela vida
À procura da tua felicidade
Almejando e retornando
Pensando e andando
Com sol e com chuva
Pelos labirintos da imaginação
Sem saber ao certo
O que é o mais certo
Se o passado virou presente
Ou se o presente terá futuro
E morro tentando saber a cada minuto
Se o que o que foi nunca mais será
Se o que foi para ti sem mim
Teve sentido e foi sentido
E assim flutuo sozinho nos versos
Que tuas mãos não pegam
Sem saber se é lúdico o meu sufoco
Que se faz verdade ou mentira
E escrevo cabisbaixo
Sofrendo e querendo
Minha poesia que grita
Não sei se é saudade
Nem é mais, talvez
Não sei se saudade
É a palavra correta
Não sei mais se sei.

A poesia virou de cabeça para baixo
Como um caleidoscópio rachado
E sacudo e puxo até que saia caldo
Quente, morno, não sei
Mas sei que minha poesia não é
Nem nunca foi a mais correta
Ela foi apenas história
Foi poesia sem esteira
Que falou de desejo
Que gritou amor sem beiras
E sucumbiu de tristeza
Em prantos, às vezes
Por andar sozinha
Mas ela existiu, serviu
Cantou e gemeu o amor que eu sentia
Até que tu escutasses
E com ela te aninhasses
Esquecendo do antigo
E beijando o porvir
Talvez seja saudade a palavra certa
Talvez a rima de saudade, seja saudade
E então, assim, os versos se completem
Se cerquem das lembranças de lá de trás
Apenas
E se derretam em um poema lindo
Que tu escrevas
Cheio de amor e paixão
Repleto de alegria e verdade
Esquecendo das discórdias
Que maltrataram a poesia
Por serem teatro apenas
Suaram frio sem esperança
E apenas existiram por mera agonia
Sem saber que poesia se eterniza
E não morre nunca, e ficará lá
Deixando lembranças angustiantes
E um nada de saudade.

The Blue is dead
Let’s Rock’n Roll!

Renato Baptista

Um comentário:

Anônimo disse...

Confesso que pouco conheço sobre Blues, mas teu poema abriu o apetite para conhecer um pouco mais sobre esse ritmo e sua história.
Um poema triste e melancólico, um lamento versado que nos causa a impressão de triste canto, mas onde, apesar da resignação, uma ponta de esperança é cantada, ou será gemida? Como os acordes do Blues?
Uma prova que o poeta entende muito de poesia e de Blues. Casamento perfeito.
EXCEPCIONAL, Renato.
Envolvente leitura.

Parabéns!

Beijos ternurentos

Clau Assi