27 novembro 2009

Despedida




Esta história está além da ficção, pois aconteceu com um amigo cujo nome não vem ao caso agora. Eram idos de 2003 quando na cidade de Louveira (MT) uma alma sucumbiu por causa do amor que sentia..

Um teatro, filas imensas... Estréia da peça que moveria o mundo com seus atores consagrados. O brilho resplandecia, enlouquecia multidão e o grande show teria início.

Despedida

Abrem-se as cortinas
Começa o espetáculo
Personagens correndo
Pelo palco que já se fazia pequeno
Luzes piscando, aplausos mil
Chuva de pétalas
E o roteiro tem início
As falas gritam
E o destino se acelera
Platéia atenta
O povaréu nem pisca
Volúpia e desejo se pronunciam
Guardas abertas, solidão de alguns
Festa de outros
Desnorteios das almas
E a busca é frenética
Entre os atores que se entregam
Aqueles mesmos
Que se vêem nus nos bastidores
E agora se impõem no palco
Sem timidez, sem medos
Palco da vida que é assim

Representação


Vida soberba com situações maculadas que se sobrepõem ao amor determinado e puro, porque na vida, como no teatro, o amor de verdade morre pelo veneno.

Romeu e Julieta

Sobrevive a paixão
Dos que rolam nus pelo chão
Gemendo
Enquanto o homem
Sentado ali, bem na primeira fila
Chora sua solidão angustiante, real
Assistindo o palco se incendiar
E fazer ferver o seu amor eterno
Que se debruçava na investida alheia
E fazia-no ver de perto o seu chão tremer

Alucinadas sensações... Regozijo

E corpos se fundem em carícias aceleradas sabendo que não haverá, para eles, um amanhã.

Paradoxo

O homem triste
Tira do bolso
Um bloco e um lenço
E calado escreve
Uns versos de amor
Enquanto este, baila no palco
Se esfregando nu em outro amor... de alguém


Mão trêmula traduz com garranchos doloridos a sua agonia. A outra mão leva o lenço aos olhos cegos por lágrimas de sangue que brotam doloridas.

Tristeza

O linho branco se avermelha
E a face do homem que ama
Não suportando a tristeza
Deixa escorrer rios de lágrimas
Sobre seus versos de amor

O espetáculo vai chegando ao fim, a peça vai terminando e a multidão aplaude de pé e alucinada a tristeza do homem sombrio.

Descontrole

Os atores nus se abraçam
Nudez de sentimentos
Nudez de alma
Nudez por nudez
Nudez total
Espectro da sodomia
E no último fechar das cortinas
Todos se beijam no palco
Roçam seus sexos nus
Que se encaixam sem desejo
Bocas se lambem
Eles se apalpam e permitem
A libertinagem sem nexo.


Aos poucos todos vão saindo rumo aos camarins, onde ali, os esperam seus pares desesperados que preferiram não assistir à peça... olhos fechados e lacrados para o show da vida.
O auditório foi se esvaziando, as pessoas voltando ao mundo real, uma a uma. As luzes foram se apagando e todos saíram, menos um.

Desespero

Ali na primeira fila
Permaneceu sentado
Aquele homem que amava
Imóvel estava, com seu bloco ao colo
Caneta no chão
Olhos semi-cerrados
O poema escrito no bloco
Estava vermelho
Recoberto de sangue espesso
Só se lia o título: - “Despedida”


O poema havia morrido junto com ele. Junto com seus sonhos, junto com seu amor maior que inflamava o peito e sentia disparado o coração e junto com sua paixão louca a e avassaladora.

Morte

No seu rosto
Por trás das lágrimas vermelhas
Um doce sorriso
Ele morrera
Com sua amada em pensamento
Enquanto ela corria nua pelos camarins
Abraçando cada um dos atores da peça
Seios empinados
Mamilos eriçados
Pelos arrepiados pelo sucesso
Que a conduzia plena


Para aquele homem não haverá nunca mais um amanhã e para ela, um novo destino estava reservado.

Epílogo

O corpo do homem foi arrastado
Levado como se fosse de um indigente
E agora pagava pelo crime de tanto amar
Pois ninguém sabia quem era ele
O seu bloco foi jogado de lado
O poema morreu sozinho
E sua alma partiu
Apaixonada e triste

A peça acabou
Fecharam-se as cortinas!


Ao final daquele ano, durante a última apresentação da peça naquela turnê, o teatro incendiou-se pela volúpia e as chamas consumiram tudo até que o teto desabasse. Tudo ruiu.
Os jornais noticiaram, no dia seguinte, que todos os espectadores e todos os atores e empregados da companhia haviam falecido.
Nas operações de rescaldo, acharam uma lata prateada e surrada que estava guardada em algum lugar que deveria fazer parte dos bastidores do teatro. No interior da lata havia um bloco todo manchado de sangue.
Na primeira página lia-se a palavra, “Despedida” e na última uma oração que nunca ninguém havia lido... “Eu te amo, nesta e em todas as vidas que virão”.
Foi isso a única coisa que permaneceu intacta e viva naquele lugar, e que deve estar hoje, e estará eternamente, guardada em algum lugar do passado.

Renato Baptista
Em homenagem aos amores verdadeiros.

8 comentários:

ICH LÍEBE DÍCH-1 disse...

Lindo demais....
Emocionante...e arrebatador o amor...
Me emocionei...

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá Renato! Simplesmente fascinante. Adorei! Uma combinação perfeita entre narrativas e poemas. Muito consistente, profundo, bem coordenado e, acima de tudo emocionante. Provou que o amor verdadeiro é aquele que atinge toda a sua intensidade. Parabéns!

Abraços e ótimo final de semana.

Furtado.

Gara disse...

Excelente!

El amor, ese sentimiento tan hermoso y grande, y a la vez, tan doloroso.

Féliz domingo

POESIA CÁ E LÁ disse...

Renato, poesia com ares de teatro.
Teatro com ares de poesia.
Vida real com ares de drama.
Drama com ares de vida real.
Conseguiste juntar tantos elementos em única publicação.
Parabéns pelo poema, parabéns pela sensibilidade, parabéns pela criatividade.

Beijo ternurento

Renato Baptista disse...

Furtado...

Sua presença aqui é uma honra meu amigo. Seus comentários são sempre muito bem elaborados.
Um grande abraço*

Renato Baptista disse...

Ich L.D.
Obrigado pela visita e palavras deixadas.
Renato*

Renato Baptista disse...

Clau...

Seus comentários são sempre completos. Obrigado por estar por aqui.
Beijo*

miluzcintila disse...

Na vida e no teatro se morre de amor... mas o amor é eterno e a vida também; é a dor que transmuta a consciencia e leva ao crescer... na consciencia reside o renascer... e nascer dói porque significa mudança!

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